Ver os nossos companheiros de quatro patas envelhecer é um processo natural, mas que traz consigo muitos desafios. À medida que os anos passam, é comum pensarmos que a lentidão, o isolamento ou aqueles pequenos tremores ao dormir são apenas “coisas da idade”.
No entanto, a medicina veterinária tem evoluído a passos largos. Estudos publicados muito recentemente, em 2026, acendem um alerta importante: algumas mudanças físicas sutis no corpo do seu cão idoso podem, na verdade, ser os primeiros sinais de Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina (SDCC) — uma condição muito semelhante ao Alzheimer nos seres humanos.
Se tem um cão sênior em casa, te convido a continuar a leitura. No final deste artigo, preparei uma ferramenta prática baseada em evidências para avaliar a saúde cognitiva do seu amigo.
Se reparou que o seu cão começou a caminhar de forma diferente, preste muita atenção. Um estudo publicado na revista Frontiers in Veterinary Science revelou que existe uma ligação direta entre a forma como o cão caminha (a sua marcha) e o declínio cognitivo.
Os investigadores descobriram que cães idosos que apresentam passos mais curtos (comprimento da passada reduzido) especificamente nas patas dianteiras (membros anteriores) tendem a ter uma maior associação com a síndrome cognitiva, que também vem sendo denominada como demência canina.
Outro sinal frequentemente subvalorizado são os tremores ou espasmos musculares involuntários, conhecidos na área médica como mioclonias. É muito comum o tutor achar que o cão está apenas tendo um sonho agitado ou que tem as “pernas fracas” devido à idade.
Contudo, uma investigação liderada por Brühl e colaboradores demonstrou que a presença de mioclonias em cães geriátricos está fortemente associada à pontuações mais elevadas em escalas de demência. Ou seja, estes espasmos musculares frequentes são, muitas vezes, um reflexo de alterações neurológicas centrais provocadas pela SDCC e não um mero problema muscular periférico.
Para ajudar os tutores e médicos a identificarem a progressão da Disfunção Cognitiva, a comunidade veterinária utiliza o acrônimo DISHAA, que resume os principais sinais de alerta:
D – Desorientação: O cão parece perdido em partes conhecidas da casa, fica preso atrás de portas ou móveis, ou olha fixamente para as paredes.
I – Interações alteradas: Pode se tornar excessivamente dependente e “grudento” ou, pelo contrário, isolar-se e demonstrar desinteresse pela família.
S – Sono (Ciclo vigília-sono): Troca a noite pelo dia. Dorme muito durante o período diurno e deambula, chora ou late de noite.
H – Higiene e Hábitos: “Esquece” das comandos antigos, começa a urinar ou defecar em locais incorretos, mesmo logo após ter voltado de um passeio.
A – Atividade alterada: Perda de interesse em passear ou brincar, ou episódios de deambulação sem rumo (andar de um lado para o outro sem parar).
A – Ansiedade: Desenvolvimento de novos medos (a ruídos, a ficar sozinho) ou irritabilidade sem motivo aparente.
Embora a Síndrome de Disfunção Cognitiva não tenha cura, o seu avanço pode ser reduzido significativamente. Hoje em dia, dispomos de estratégias eficazes que incluem:
Fisioterapia: Ao trabalhar o equilíbrio, a coordenação e a proprioceção, a fisioterapia envia estímulos sensoriais valiosos diretamente para o sistema nervoso central. É fundamental para manter o cão idoso ativo e autônomo por mais tempo.
Acupuntura: Uma ferramenta de neuromodulação para regular o sistema nervoso. A estimulação de pontos específicos liberta endorfinas e neurotransmissores que reduzem a dor crônica, reduzem a ansiedade e ajudam a reequilibrar o ciclo do sono, trazendo mais serenidade ao pet.
Ozonioterapia: Atua no stresse oxidativo celular, um dos principais responsáveis pela neurodegeneração. O ozônio medicinal melhora a microcirculação sanguínea e a oxigenação dos tecidos cerebrais, além de possuir um efeito anti-inflamatório sistêmico que renova a vitalidade do animal.
Microfisioterapia: Esta técnica de terapia manual sutil atua na identificação de bloqueios ou memórias de stresse físico e emocional acumuladas nos tecidos. Ao estimular os mecanismos de autorregulação do próprio organismo, ajuda a reduzir a sobrecarga no sistema nervoso, promovendo um relaxamento profundo e melhorando a resposta do cão ao ambiente e aos tratamentos em andamento.
Enriquecimento Ambiental: Brinquedos cognitivos, novos estímulos olfativos e passeios calmos ajudam a manter o cérebro ativo (neuroplasticidade).
Apoio Médico: Medicamentos neuroprotetores, florais, fitoterápicos e terapias biofísicas para melhorar a microcirculação cerebral e regular o sono.
Não ignore os pequenos sinais. O seu companheiro de uma vida inteira merece que olhe por ele nesta fase tão vulnerável. Se notar passos mais curtos, tremores frequentes ou alterações de comportamento, converse abertamente com o seu médico veterinário.
Aviso de Responsabilidade: Este artigo tem fins puramente educativos e informativos, baseando-se em literatura científica recente. O questionário CADES aqui disponibilizado serve como uma ferramenta de triagem para o tutor e não substitui, sob qualquer circunstância, uma consulta, exame neurológico detalhado e diagnóstico realizado por um médico veterinário.
O diagnóstico precoce é a chave para garantir que o seu cão viva com dignidade, conforto e qualidade de vida.
Para o ajudar nesta missão, disponibilizo aqui uma versão adaptada da Escala CADES (Canine Dementia Scale). Este questionário baseia-se num modelo científico validado (Madari et al., 2015) que os neurologistas veterinários utilizam para categorizar a SDC em três níveis: leve, moderada ou grave, e também detectar sua ausência.
[Clique aqui para acessar o Formulário CADES e fazer o teste ao seu cão]
Nota: Responda às perguntas com base no comportamento do seu companheiro nos últimos meses. Guarde o resultado ou imprima-o para partilhar com o seu médico veterinário na próxima consulta.
Referências:
Rafatpanah Baigi, S., Stywall, A., Yang, C. C., Mondino, A., Fefer, G., Panek, W., Simon, B., Case, B., et al. (2026). Thoracic limb stride length is associated with cognitive impairment in aging dogs. Frontiers in Veterinary Science, 13:1814017. 👉 DOI: 10.3389/fvets.2026.1814017
Brühl, S. M., Volk, H. A., Rohn, K., & Meyerhoff, N. (2026). Myoclonus in geriatric dogs and its association with canine cognitive dysfunction: an online survey. Frontiers in Veterinary Science, 13:1745264. 👉 DOI: 10.3389/fvets.2026.1745264
Madari, A., Farbakova, J., Katina, S., Smolek, T., Novak, P., Novak, M., & Zilka, N. (2015). Assessment of canine cognitive dysfunction using the CAnine DEmentia Scale (CADES). Applied Animal Behaviour Science, 171, 131-139. 👉 DOI: 10.1016/j.applanim.2015.08.013
Mondino, A., Catanzariti, M., Mateos, D. M., Khan, M. Z., Panek, W. K., Gruen, M. E., & Olby, N. J. (2023). Winning the race with aging: age-related changes in gait speed and its association with cognitive performance in dogs. Frontiers in Veterinary Science, 10:1150590. 👉 DOI: 10.3389/fvets.2023.1150590
Landsberg, G. M., Nichol, J., & Araujo, J. A. (2012). Cognitive dysfunction syndrome: a disease of canine and feline aging. Veterinary Clinics: Small Animal Practice, 42(4), 749-768. (Base de desenvolvimento do acrónimo DISHAA amplamente adotado pela AAHA/AVMA).
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